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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Natal dos ursos

Quando chega a Primavera e eu acordo do meu longo sono de Inverno, escondida na minha gruta preferida, já a floresta está cheia de turistas que assim que vêem um raio de Sol vão logo fazer piqueniques.
Os guardas-florestais bem nos avisam para não nos aproximarmos das pessoas. Mas as comidas deles são tão cheirosas que o meu faro apurado não resiste e quando dou por isso já estou ao pé delas.
A minha mãe ensinou-me a ficar sossegada atrás dos arbustos para as pessoas não nos verem. Por muitos avisos que os guardas-florestais lhes façam há sempre um momento em que deixam a comida nas mesas e descem até ao rio ou vão dar um passeio à floresta.
Assim não há urso que resista, e o piquenique das pessoas passa a piquenique dos ursos. Ao mínimo ruído, fugimos dali para fora, também não gostamos dos sermões do guarda-florestal.Num desses dias, já o Outono ia avançado, enquanto esperava escondida atrás dos arbustos, ouvi uma conversa que me deixou intrigada.
Falavam do Natal. Não sabia o que isso era mas percebi que era uma festa com muita comida, por isso prestei toda a atenção. Parece que a família se juntava toda e brincavam na neve.
Que estranho, eu hibernava exactamente para não ter de andar na neve, é muito mais difícil andar e encontrar comida.
Também falavam de muitas luzes coloridas. Fez-me lembrar as histórias que a mamã contava sobre a aurora boreal, quando o céu se enche de cores. Eu já tinha visto o arco-íris, mas não era a mesma coisa.
No último Inverno, quando me deitei a dormir na minha gruta, sonhei que atrasava a minha hibernação para poder mostrar às minhas crias o que era o Natal, com a neve e as luzes coloridas.
Mal eu sabia, que quando acordasse novamente no final de Fevereiro, já teria dois ursinhos para me fazerem companhia e me ajudarem a cumprir o meu sonho.
Eram tão pequeninos, mas cresciam tão depressa, que cedo os comecei a levar aos piqueniques das pessoas. Expliquei-lhes todos os truques para que nunca fossem apanhados pelos guardas-florestais.
Os meses iam passando enquanto lhes ensinava a colher as bagas mais doces, a chegar às larvas das abelhas sem serem picados e a apanhar os peixes mais rápidos.
Quando o mês de Dezembro chegou, eu já tinha decidido que só iríamos hibernar depois de descobrirmos o que era o Natal.
Para começar tínhamos de procurar a neve. Dirigimo-nos então para as montanhas, mas nunca mais a encontrávamos.
Cruzámo-nos com um puma que nos disse que a neve, que costumava vir do norte, ainda não tinha chegado. Portanto, fomos atrás dela.
Seguimos a floresta até a o fim, mas neve nem vê-la. Depois, só um campo sem árvores. O que seria aquilo?
Andávamos por lá a tentar perceber o que se passava quando encontrámos um urso-polar solitário. Era o primo Ben. Estava tão magro que mal o conhecia. A última vez que nos tínhamos visto éramos ainda crianças.
Explicou-nos que de ano para ano havia cada vez menos neve e chegava cada vez mais tarde. Sem gelo não conseguia caçar e já tinha tanta fome que não conseguia continuar a caminhar para norte. Partilhámos com ele o peixe e bagas que trazíamos connosco para a viagem.
Seguimos os quatro para norte à procura da neve e do gelo, percorremos caminhos e atravessámos braços de mar, mas as minhas crias também já estavam a ficar cansadas e com fome. Até que ao longe vimos um monte branco e começámos a correr. Finalmente neve.
O primo Ben estava tão cansado que já não conseguia caçar sozinho. Ensinou-nos como havíamos de esperar junto a um buraco no gelo para conseguirmos apanhar uma foca. Foi a primeira vez que caçámos algo tão grande.
Nessa noite, com a família junta, fizemos um banquete maravilhoso, enquanto víamos a aurora boreal. Aquelas cores eram ainda mais maravilhosas do que a mamã me contara.
Se o Natal que as pessoas falavam era isto – a família, as cores, a alegria e a boa comida –, então valia bem a pena ir para a gruta mais tarde todos os anos.


Que belas bagas vermelhas - Planta do mês

Quando chega o Natal, as plantas femininas de azevinho vestem-se a rigor, com as suas bagas redondas e vermelhas.
Para os Cristãos, estas bagas representavam o sangue de Cristo e as folhas espinhosas a coroa que usou.
Mesmo antes do Cristianismo, as festas pagãs que aconteciam no solstício de Inverno usavam os ramos de azevinho como decoração ou como amuleto.
A colheita desregrada desta espécie nativa foi proibida porque estava a colocar em risco a sobrevivência desta planta.A destruição das florestas também diminui o habitat desta espécie.Um habitat outrora muito diferente.
Elas faziam parte da floresta laurissilva, uma floresta húmida, que ocupava toda a região mediterrânica. Quando o ambiente nesta área se tornou quente e seco, o azevinho (Ilex aquifolium) adaptou-se a estas mudanças mas a floresta laurissilva ficou restrita às ilhas dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde.
Estas árvores, que embora possam chegar aos dez metros, a maior parte das vezes não ultrapassam a altura de um homem. Têm folhas perenes que são grossas e de um verde escuro brilhante, para aproveitar bem cada raio de Sol e não deixar escapar água que lhes seja essencial.Quando são jovens, as folhas estão cobertas de espinhos para não serem comidas pelos herbívoros.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Siamango (Symphalangus syndactylus)

Já pensaste na enorme variedade de sons que se podem ouvir no Jardim Zoológico? Talvez não saibas ainda identificar todos os animais pelos sons que emitem mas seguramente um dos sons mais característicos que qualquer visitante como tu recorda sempre que ouve é o que é emitido pelo Siamango!
Não sabes o que é um Siamango? O siamango é um primata, tal como o gorila ou o mico-leão-dourado, no entanto ele pertence a um grupo muito particular de primatas: os gibões, sendo o Siamango o maior de todos os gibões. Aqui no Jardim Zoológico podes encontrar outras espécies de gibões como o gibão-de-mãos-brancas e estas espécies são originárias do Sudeste Asiático.

Uma das principais formas de distinguir os gibões de outros animais é o seu modo de locomoção: a braquiação. Dado que os gibões são essencialmente arborícolas e raramente se deslocam no solo, estão muito bem adaptados à vida na copa das árvores. Com os seus longos braços e articulações especializadas, conseguem deslocar-se de ramo em ramo a velocidades e distâncias muito grandes. Outra característica importante dos gibões é a sua territorialidade, ou seja, estes animais formam geralmente casais e defendem o seu espaço através de vocalizações, muitas vezes em duetos ou sozinhos.
O siamango é sem dúvida o mestre das vocalizações! Podem ser ouvidas a quilómetros de distância e acontecem geralmente mais intensas nas horas de crepúsculo ou seja ao amanhecer e ao anoitecer. Para poder cumprir esta tarefa, o siamango conta com uma estrutura na sua garganta que se chama “saco gular”. Este, tem a capacidade de se insuflar e esvaziar como um balão permitindo ao animal produzir uma variadíssima gama de sons. É um animal que se alimenta essencialmente de vegetais e frutos. Tanto o macho como a fêmea possuem a pelagem escura. Infelizmente estes animais estão cada vez mais ameaçados pela destruição do seu habitat e pela captura ilegal para o comércio de animais.

Quando vieres visitar o Zoo, fica atento aos sons e procura o Siamango e os outros gibões pois talvez consigas ouvir as suas “canções”.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O especial Mainá-do-bali


O Mainá-do-bali é uma ave especial. Traz consigo a honra de ser símbolo nacional do Bali, mas também o fardo de ser sinónimo de estatuto social alto na Indonésia e, sobretudo por esta razão, é uma das aves mais ameaçadas de extinção não só na Indonésia, como no Mundo. O Mainá-do-bali está classificado pelo UICN – a União Internacional para a Conservação da Natureza, como Criticamente em Perigo, ou seja a um passo da extinção na Natureza.

Sendo uma espécie endémica, ou seja, que só ocorre naturalmente num determinado país e sendo Bali uma pequena ilha, a sobrevivência desta espécie depende de um frágil equilíbrio. Aliás, atualmente os animais desta espécie encontram-se restritos a duas zonas protegidas, o Parque Nacional de Bali-Barat e o Santuário de Aves de Nusa Penida (um conjunto de 3 pequenas ilhas vizinhas de Bali).

No início da década de 1980, estimava-se a existência de apenas 200 aves em liberdade. Desde essa altura, foram realizados esforços de reintrodução de aves criadas em cativeiro, mas a população total em liberdade nunca conseguiu exceder a contagem de 50 indivíduos verificada no Parque Nacional de Bali-Barat, em 2008.

Tendo em conta a situação social das populações humanas locais indonésias, a sobrevivência do mainá-do-bali na natureza dependente totalmente da sua reprodução fora do habitat e posterior reintrodução. O que implica uma enorme operação conjunta entre parques e zoos com animais da espécie e a criação de condições favoráveis à sua sobrevivência no habitat para que seja possível a sua reintrodução em Bali.

No entanto as medidas de conservação no habitat são indispensáveis para a sua sobrevivência e incluem uma parceria entre a defesa da espécie e as comunidades locais que participam no tráfico e venda ilegal destes animais. Assim, foram estabelecidas estratégias que permitissem “alimentar” o mercado ilegal enquanto se protegem os restantes animais da espécie, contrariando assim um provável aumento da captura ilegal. Foram definidos criadores da espécie dentro da comunidade local que se responsabilizam pela sua reprodução e que se comprometem a libertar 10% das suas crias no Parque Nacional de Bali-Barat e que são penalizados no caso de morte de um reprodutor, altura em que terão que pagar entregando uma das suas vacas. São medidas locais que envolvem a comunidade e que permitem diminui a captura de animais, aumentando o número de Mainás-do-bali na Natureza.

Sendo as medidas locais insuficientes por si só, a comunidade internacional está em franca cooperação para a recuperação da espécie. Sabe-se que existem apenas cerca de 300 destes animais sob cuidados humanos em parques e zoos como o Jardim Zoológico de Lisboa. Estas instituições, seguindo as indicações do coordenador do Programa Europeu de Reprodução da Espécie (EEP), estão a trabalhar em conjunto para que se consiga obter um número aceitável de indivíduos da espécie e, assim que as condições sejam favoráveis no habitat, se possa avançar com a sua reintrodução na ilha de Bali.

A sua beleza ímpar torna-a inconfundível, as penas são quase todas brancas, na cabeça exibe uma longa crista pendente na mesma cor, e para captar a atenção de todos o bico é amarelo e os olhos estão envoltos numa pele nua azul contrastante. Com apenas cerca de 25cm e pouco mais de 100 gramas de peso, o Mainá-do-bali enfrenta com garra este desafio, a luta pela sobrevivência da sua espécie.


A espécie em números
Em 2008, a população estimada no Parque Nacional do Bali-Barat era de 50 indivíduos. Em 2009, em Nusa Penida, onde a espécie foi introduzida registaram-se 65 aves adultas. No entanto, dado que a estimativa de população só deve incluir de indivíduos maduros, a população atual máxima é de apenas 115 indivíduos. Devendo-se assumir cautelosamente um efetivo de indivíduos capazes de reproduzir de cerca de apenas 50 destas aves.

As verdadeiras ameaças atuais
Com a crescente dificuldade na captura, o valor de um mainá-do-bali aumentou e em 1999 um só animal podia ser vendido por $2000 (dólares americanos). As áreas protegidas ficaram sujeitas ao tráfico e o parque chegou mesmo a ser invadido por um grupo armado que capturou 39 aves que se encontravam a aguardar a libertação na Natureza. Atualmente com a população a um nível tão baixo de animais, outros fatores podem tornar-se ameaças como a erosão genética que poderá impossibilitar a obtenção de novas crias saudáveis, enquanto a predação por outros animais e as doenças naturais passam a ser também importantes já que qualquer pequena redução no número de animais é de extrema importância.




O papel do Jardim Zoológico na conservação desta espécie é real. Sem a manutenção destes animais sob cuidados humanos e sem a sua reprodução, pouco faltará para que o mainá-do-bali não resista. Lutamos pela sua sobrevivência porque a extinção, é para sempre.

Animais do Zoo - NInhos ou tocas?


Grifo
Já pensaste como é que os animais se protegem do vento, da chuva, do frio, do calor e também dos predadores? Muitos têm pelo para os ajudar e outras partes do corpo adaptadas. No entanto, muitos animais precisam de construir abrigos, como tocas, para se protegerem melhor. E naquelas alturas especiais em que há pequenas crias a caminho ou filhotes ainda pequenos? Também é preciso uma proteção extra, e nada como um confortável ninho, não achas? Há ainda outros animais que procuram locais abrigados, são os que preferem refúgios naturais, como buracos em árvores ou rochas, ou até mesmo vegetação.

 Sabias que os ninhos dos frifos podem ter dois metros de diâmetro e pesar mais de uma tonelada? E que os ninhos dos flamingos são cones de lama? Mas não são só as aves que constroem ninhos. Há animais que os constroem apenas para passar a noite, para hibernar durante longos meses, ou até para passar toda a vida. No caso dos mamíferos, existem roedores que fazem ninhos nas ervas, outros que escavam galerias no solo e até primatas que fazem ninhos nas árvores para passar a noite, como os orangotangos e os gorilas.

suricatas
As tocas costumam ser escavadas no solo, na lama ou na neve,  ao contrário dos ninhos que podem estar suspensos,  assentes em troncos, no chão ou a flutuar. Muitos mamíferos constroem tocas como os coelhos, mas há um especial, a Suricata. As suricatas são tão engenhosas que constroem túneis debaixo da terra, e ligam-nos uns aos outros. É como se fossem verdadeiras casas subterrâneas, em que cada divisão está ligada à outra por um corredor! Para as suricatas não bastava escavar uma toca, elas tinham que fazer uma construção grande no solo da savana para ser suficiente para a família toda.


Mas também existem alguns animais que não precisam de procurar abrigo nem construir nenhuma proteção, pois ela já está incluída no seu corpo, como é o caso do porco-espinho que está sempre protegido com os seus longos e afiados espinhos. Como podes ver, o mundo animal está repleto de excelentes construtores e de “casas” muito diversas.

O Rinoceronte de D.Manuel I


A época dos Descobrimentos foi um período da História de Portugal durante o qual se fizeram muitos avanços em várias ciências como a astronomia e a cartografia. No entanto foi neste período em que se avançou muito no conhecimento da biodiversidade!
Durante este período da nossa História, eram trocados todos os dias diversos produtos através das novas rotas comerciais, desde tecidos, pedras preciosas, madeiras e também animais. Em 1515, o Rei D.Manuel já possuía no Palácio da Ribeira uma colecção de animais vindos de vários locais da Ásia e de África. Aí, guardava já elefantes, leões, antílopes, alguns primatas e várias aves.
Em Setembro de 1514, no seguimento de várias negociações entre uma embaixada portuguesa liderada pelo Vice-Rei da Índia Afonso de Albuquerque e o Sultão de Cambaia, foram trocadas várias oferendas e entre elas estava um rinoceronte-indiano ou “ganda” como é chamado na Índia .Assim, e sem condições para manter o precioso animal, o Vice-Rei decide oferecê-lo ao Rei D.Manuel. O rinoceronte foi descrito por Gaspar Correia, secretário do Vice-Rei da Índia, como «um animal doce, de corpo baixo, um pouco longo; o couro, os pés e as patas de elefante; a cabeça comprida como a de um porco; os olhos próximos do focinho; e sobre o nariz tem um corno grosso e curto, afiado na ponta. Come erva, palha e arroz cozido».
Rinoceronte-indiano feito por Albrecht Dürer
No dia 20 de Maio de 1515 , após uma viagem de 120 dias, a nau Nossa Senhora da Ajuda chega então a Lisboa. As pessoas nas redondezas juntam-se para vislumbrar melhor aquele “estranho monstro” nunca antes visto.  O animal é então colocado perto dos outros animais do Rei, mas longe dos elefantes pois de acordo com autores romanos da Antiguidade, estes animais eram inimigos mortais. Por forma a testar esta teoria, o Rei organiza um combate entre ambos, no dia 3 de Junho, no local que é hoje o Terreiro do Paço. Não só não houve qualquer confronto, como o elefante jovem se assustou e fugiu do recinto. As notícias relatando o sucedido espalharam-se rapidamente pela Europa através dos comerciantes e numa dessas cartas, pertencentes a um autor desconhecido ia também um desenho do animal que chegou a Albrecht Dürer que veio posteriormente a elaborar uma gravura em madeira a partir do desenho. Estas representações influenciaram durante séculos a forma de representar este animal.
Infelizmente, em Dezembro de 1515, o rinoceronte é enviado como oferta do Rei para o Papa Leão X mas nunca chega a Roma pois a nau onde seguia acorrentado acaba por naufragar no Mediterrâneo. Após se ter recuperado o corpo do animal o Rei ordenou o seu empalhamento e transporte para Roma onde chega em Fevereiro de 1516.